Milhares de pessoas homageiam Maricarmen Abascal em marcha em Madri
"Não são mortes, são assassinatos." Entre a emoção e a revolta, milhares de pessoas marcharam nesta quinta-feira (8) em Madri para lembrar Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos que morreu na véspera após se tornar um símbolo da crise de moradia na Espanha e cujo despejo desencadeou uma onda de protestos.
"A morte de Maricarmen será um símbolo de luta e nos fez despertar para dizer 'basta'", afirmou Rosa Marín, educadora infantil de 48 anos, durante a marcha, que reuniu cerca de 20 mil pessoas, segundo os números da representação do governo central em Madri.
O impactante despejo da idosa colocou a habitação no centro do debate público espanhol, desencadeando uma turbulência que culminaria na convocação de eleições antecipadas para 29 de novembro.
"Todos nós temos que lutar por isso", disse, alguns metros adiante, Marisol Gallo, uma aposentada que foi à manifestação para "agradecer" aos jovens pela luta iniciada após o despejo de Maricarmen, há duas semanas.
"Esperamos que isso traga uma mudança, porque é muito necessária", acrescentou a mulher de 82 anos. "Se um jovem não consegue sair da casa dos pais, o que ele faz? Quem está lá em cima precisa agir", afirmou.
- "O que mais?" -
A marcha partiu da central Puerta del Sol, praça onde manifestantes estão acampados há cerca de dez dias para exigir melhorias diante da crise de moradia, e terminou em frente ao prédio, também no centro, onde fica o apartamento em que Maricarmen viveu por mais de sete décadas.
Ao chegar, os manifestantes aplaudiram antes de observar um minuto de silêncio. Numerosas velas e flores homenageavam a idosa na entrada do prédio desde as primeiras horas do dia.
"Obrigada por lutar com e por todas nós", dizia um cartaz com um desenho de sua imagem.
Maricarmen foi retirada de maca desse prédio no bairro abastado de Retiro em 23 de setembro, após a execução do despejo contra o qual havia lutado durante anos.
A mulher, uma octogenária com dificuldades de locomoção, foi obrigada a deixar o apartamento onde havia passado grande parte da vida depois que a empresa proprietária tentou aumentar drasticamente seu aluguel.
A imagem de seu despejo provocou indignação em um país cada vez mais preocupado com a falta de acesso à moradia, que se traduziu em uma onda de mobilizações e acampamentos em várias cidades.
"Maricarmen teve essa presença na mídia e foi um pouco a gota d'água", avaliou durante a marcha Antón Alexander, professor de fotografia de 26 anos.
"Para mim, isso deixa de ser uma questão de esquerda contra direita (...). Já se trata de tentar manter um Estado de bem-estar social que vemos desmoronar por todos os lados", acrescentou.
- Longa luta -
Imediatamente após o despejo, Maricarmen Abascal foi hospitalizada em estado de extrema debilidade.
Os protestos após sua retirada, que se tornou um símbolo da especulação imobiliária, levaram a empresa a aceitar um acordo que permitiria à mulher voltar ao apartamento quando se recuperasse.
Mas seu delicado estado de saúde não permitiu o retorno, e ela morreu na quarta-feira em um hospital de Madri.
Diante das crescentes mobilizações, o governo de esquerda de Pedro Sánchez apresentou dois decretos com medidas para tentar conter a crise de habitação, que incluíam restrições aos despejos de pessoas vulneráveis. Mas os textos foram rejeitados na sexta-feira pelo Congresso.
Diante do bloqueio parlamentar, o líder socialista convocou eleições antecipadas para 29 de novembro.
"É uma mulher que foi usada politicamente por uns e por outros", opinou Juana Sotillos, aposentada de 68 anos que estava na manhã de quinta-feira na Puerta del Sol.
Há alguns meses, Maricarmen Abascal havia relatado ao veículo elDiario.es seus anos de luta para tentar evitar o despejo depois que o imóvel foi adquirido pela empresa imobiliária, que aumentou consideravelmente o aluguel.
"Essa luta me custou a saúde, não consigo nem ficar em pé", denunciou na ocasião.
(Y.Harris--TAG)